Uma noite sem fim

Como Hoinu fugiu das multidões mortais de Manipur 

Hoinu* está entre os 41,5 mil cristãos kuki deslocados de suas casas pela violência etno-religiosa em Manipur, Índia. Quando uma parceira da Portas Abertas a visitou em um acampamento de deslocados internos, ela derramou seu coração detalhando sua horrível fuga.


A parceira local Tala* conta como foi seu encontro com a cristã perseguida na Índia.  

Dentro de um campo de deslocados 

O barulho das hélices de dois helicópteros do exército ainda era ouvido quando entramos em um acampamento de deslocados. Era nossa última visita do dia, e o salão que abriga os moradores é espaçoso e impessoal. As laterais forradas com colchões cercam utensílios de cozinha, brinquedos infantis, artigos de lavanderia. 


As famílias vivem em “casas” improvisadas separadas por cobertores. Essas paredes frágeis dão às famílias a privacidade que os cobertores podem permitir. É quase hora do almoço e as lentilhas, batatas e arroz são cozidos em uma cozinha improvisada do lado de fora do prédio.

As fronteiras da cidade natal de Hoinu, Imphal, foram ocupadas e monitoradas por extremistas da religião majoritária na região. As igrejas do povo kuki foram reduzidas a escombros e cinzas, e as casas são meros esqueletos.

 

Enquanto seus vizinhos preparam seus utensílios para o almoço, Hoinu nos leva para o interior do salão, que ela compartilha com 63 famílias kuki deslocadas, somando 270 residentes no total. 

Tudo começou no WhatsApp 

Em um vídeo no celular de Hoinu, um homem anuncia: “Vamos atacar o lugar onde os kuki residem!”. Uma multidão de cem pessoas se reuniu, gritando insultos e palavrões contra a tribo majoritariamente cristã.


Mais tarde, a multidão foi identificada como os grupos extremistas Meitei Leepun e Arambai Tenggol. A maioria dos jovens de camisa preta e motocicletas tomaram conta da cidade de Imphal em nome da tribo, da terra, da política e do sanamahismo – a religião da maioria étnica de Manipur.

“Pensamos que eram apenas alguns bandidos e garotos fora de controle e que duraria apenas um dia.”

No fim da tarde de 3 de maio de 2024, a violência retratada no vídeo do WhatsApp chegou até a vizinhança de Hoinu. Pouco depois de o vídeo se espalhar entre seus vizinhos, ela começou a ouvir o barulho constante de choque entre objetos de metal. “Perto da nossa casa, todos [os extremistas] se reuniram. Eles bateram em um poste elétrico... é o sistema de comunicação entre eles”, conta. “Então, eles bateram em outros dez postes. Depois de 20 a 30 minutos, todos estavam reunidos lá.”

 

Era uma multidão maior do que a do vídeo, tinha entre duzentas e trezentas pessoas. 


“Naquela época, meu marido disse: ‘Essa situação parece estar piorando. Vamos correr!” 


“Não podíamos imaginar o que iria acontecer. ‘Eles vão nos poupar ou vão nos matar?’ Era o que passava pela nossa cabeça.” 


“Eu arrumei todos os meus pertences – só os documentos, certificados dos meus filhos... Eu não conseguia nem arrumar as roupas.” 


Hoinu e sua família correram o mais rápido que conseguiram. Eram ela, seu marido, seus quatro filhos, seus irmãos, até mesmo seus sogros. Eles pararam na casa do tio que morava logo ali na esquina e ficaram por um tempo. 


“Nós estávamos sentados lá, e logo depois de três segundos, eles começaram a queimar as casas ao lado da nossa vila. Quando eles queimaram as casas, as explosões dos botijões de gás fizeram parecer que havia um bombardeio e meus filhos começaram a chorar:

‘Mãe, estou com muito medo. O que vai acontecer? O que eles estão fazendo? Estão bombardeando nossas casas? Estão nos bombardeando?’”

“Eu não tinha respostas”, continuou Hoinu. Ela apenas tentou explicar as explosões. 

“Eles estão queimando casas”, ela disse aos filhos, tão corajosamente quanto uma mãe assustada poderia. “Quando eles queimam as casas, o fogão e os botijões estouram. É por isso que parece um bombardeio.”

“Eu os acalmei, mas eles continuaram chorando.” 

Pouco depois, a multidão chegou muito perto. A família de Hoinu teve que deixar a casa do tio por segurança. 

Escondidos em silêncio 

Procurando refúgio, Hoinu e sua família foram em direção à residência compartilhada de alguns líderes cristãos: “Eles nos receberam calorosamente”.

  

“À meia-noite, a multidão queimou as vilas próximas... naquela noite inteira, não conseguimos dormir, com medo.” 

“A multidão gritava: ‘Kukis, saiam! Estamos caçando vocês! Hoje é seu último dia! Se vocês não forem mortos esta noite, ninguém estará [vivo]!’ Eles gritavam e nos xingavam.”

“Um dos líderes da igreja veio até nós e disse: ‘Por favor, não façam barulho. Mantenham silêncio absoluto’. Nem um único bebê pôde chorar naquela noite.” 

“Éramos mais de duzentas pessoas. Havia mais de dez bebês e idosos que não conseguiam nem segurar um copo de água sozinhos. Com medo, não conseguíamos nem beber água.” 


Hoinu compartilhou que estava ficando inquieta e se esgueirou até a janela para ver lá fora. “Mesmo com medo, abri as janelas e olhei para assistir. Eles estavam segurando barras de ferro, espadas, alguns deles tinham armas. Eu só conseguia ver porque havia postes de luz. Eles estavam andando sob os postes de luz.” 

E então, uma verdade dolorosa surgiu: Hoinu conhecia as pessoas que ameaçavam seu povo kuki.

“Nos últimos 15, 25 anos vivemos juntos. Compartilhamos festivais meitei ou kuki, compartilhamos nossos bens, nossa comida. Nós nos conhecíamos. Enquanto os observava, reconheci vários deles. Eles são os que quebram nossas janelas, nossos veículos, nossos bens e nossas coisas.” 


“A multidão disse: ‘Hoje é nossa vitória! Nós vencemos os kuki! Agora, vamos destruir suas casas…” 


“Às vezes, eles batiam palmas, cantavam uma música e dançavam comemorando… Eles destruíram três casas naquela noite.” 

Eles marcaram nossas casas com um "X"

Hoinu, como a maioria de seu povo, especula que os ataques contra sua tribo foram planejados. Ela se lembra de que, no passado recente, homens estranhos foram a sua casa, fingindo ser funcionários do governo fazendo um censo.


“Nós soubemos que, antes desta crise, eles [os extremistas] fingiam ser oficiais, funcionários do governo. De dois a quatro homens costumavam ir a cada uma das casas. Se os moradores fossem kuki, eles marcavam com tinta spray vermelha os portões ou muros daquelas casas.”

 

“Agora relembramos e comentamos uns com os outros que um homem costumava vir e perguntar se éramos kuki ou meitei. Se disséssemos que éramos kuki, eles costumavam marcar em um papel que tinham na mão.” 


Há anos, tensões se formaram entre as tribos meitei e kuki, no Nordeste da Índia. Mas as hostilidades chegaram ao auge quando uma decisão judicial concedeu à população meitei o status de “Tribo Programada”, o que significa que agora eles desfrutariam dos mesmos benefícios que a tribo minoritária kuki.  


Por medo de perderem suas terras, os kuki contestaram essa decisão em um “protesto pacífico” em 3 de maio. Mas as multidões de extremistas meitei começaram a se formar por toda a cidade de Hoinu. Elas causaram estragos, como incêndio de casas, assassinatos, abuso sexual, saques e invasão de terras.   

De acordo com os moradores locais, os extremistas dos grupos Arambai Tenggol e Meitei Leepun atacaram tanto com objetivo de ganhos políticos, como em nome de sua religião. Mais de 350 igrejas foram destruídas, assim como símbolos do cristianismo associados à tribo kuki. Eles afastaram a população kuki de suas casas e forçaram cristãos meitei a se reconverterem à religião tribal.


Embora as causas do conflito em Imphal tenham se tornado uma mistura de poder, etnia e fé, “os cristãos estão sofrendo a cada dia, não apenas em Manipur. Em outros estados eles também estão sofrendo. Alguns perdem suas vidas, casas, amigos, parentes”, denuncia Hoinu.

“Se isso continuar por mais cinco anos, os cristãos serão eliminados. Então, peço a todos os cristãos, onde quer que estejam, que orem não apenas por Manipur, mas por todo o país, pelos cristãos que vivem na Índia.” 

A vida está parada

“Agora, estamos totalmente separados. Não podíamos nem entrar em contato com as pessoas que vivem na região de Imphal. E, além disso, a educação dos nossos filhos também parou. Não podemos ir, nem fazer nosso trabalho diário”, lamenta Hoinu.    

“Parou. Tudo parou. Como quando lemos algumas palavras, alguma história, colocamos um ponto final. Agora nossa condição é assim... Foi colocado um ponto final em tudo. Precisamos de uma vírgula. Como vamos continuar?”

“Às vezes, minhas filhas e filhos dizem: ‘Mãe, sinto falta da minha escola. Sinto falta dos meus professores. Sinto falta dos meus amigos.’ O que me machuca muito é quando meus filhos me perguntam: ‘Quando vou para a escola? Quando vou aprender de novo? Quando vou encontrar meus amigos?’ Não há resposta para eles.” 


“‘Se Deus quiser, você continuará em breve.’ É exatamente isso que eu digo.” 

Perguntas para Deus

Quando Hoinu e sua família fugiram da casa dos líderes cristãos, buscaram refúgio com um grupo paramilitar local, onde ficaram entre 4 e 8 de maio de 2023. “Eles nos davam comida duas vezes por dia”, diz Hoinu. Depois disso, eles foram transferidos para o salão multiuso. “Até hoje, estamos residindo aqui. Pela graça de Deus, nossas vidas e famílias estão seguras”, ela compartilha. 


“Eu não tenho perguntas para Deus. A Bíblia diz que o acontece conosco é para o bem, então eu confio em Deus.”  


Como seres humanos, às vezes, temos dificuldade de acreditar em Deus. Então, muitas perguntas surgem como: ‘Por que isso aconteceu conosco? Por que não acontece com outros que não acreditam no Deus vivo, que adoram um ídolo? Por que essas coisas não acontecem com eles?’ Mas eu me acalmei e confio em Deus.” 

“Sempre que leio a Bíblia, tenho paz em minha mente de que ele está planejando algo bom para nós. Confio em Deus e minha esperança é que ele nos ajude e nos guie. Então, lembre-se de nós em suas orações.”

Desde que Hoinu e sua comunidade foram para o acampamento de deslocados, eles mantiveram os momentos de oração.

 

“Do dia 9 de maio até hoje, estamos louvando a Deus. Temos comunhão todos os dias, de manhã e à noite, duas vezes por dia”, conta. 


“De manhã, às 7h, e à noite, às 19h, temos comunhão. Todos os dias, com todos eles, porque todos somos cristãos, embora sejamos de diferentes denominações. Alguns são batistas, pentecostais, mas aqui não falamos sobre denominações. Acreditamos apenas em um Deus, somos cristãos, então devemos nos voltar para Deus, devemos louvá-lo.” 

Hoinu compartilha que o versículo que lhe dá força agora está em Salmos 121. 
“Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra”, ela lê. “Esse é meu versículo favorito.” 

Chegou a hora de dizer adeus. O filho pequeno de Hoinu caminha em nossa direção e nos espia por trás de sua mãe. Minha amiga Nitya, uma parceira local da Portas Abertas, nos convida a orar. Nós curvamos nossas cabeças juntos em nome de Jesus, intercedendo por Hoinu, por sua família, por seu povo e seu país diante da sala do trono de Deus. 

Por meio do seu apoio, parceiros de campo da Portas Abertas puderam fornecer socorro imediato, como sacos de arroz, lentilhas, batatas, suprimentos médicos e sanitários e itens de mercearia para o acampamento de deslocados de Hoinu. 


Ao nos despedirmos, Hoinu aperta nossas mãos. 

“Vocês vieram de longe para nos visitar. Obrigada. Não só pelas compras, não é só a comida, mas vocês vieram para nos ouvir. Compartilhar com vocês tira nossa pressão mental. Obrigada por terem vindo até aqui.”

Por favor, ore

  • Interceda por Hoinu e sua família enquanto eles continuam deslocados. Peça por seus filhos, para que retornem à escola como desejam. 


  • A comunidade kuki tem pressionado por uma administração separada dos meitei. Clame para que a paz e a justiça de Deus reinem sobre a tensão em Manipur.  


  • Louve a Deus pelas constantes orações de manhã e à noite conduzidas no acampamento de deslocados. Ore para que todos encontrem esperança, força e paz em Jesus. 

*Nomes alterados por segurança.